“Tudo ou nada”: pensamentos distorcidos ajudam a manter obesidade

A obesidade é uma condição a que se chega – e que é mantida – muitas das vezes por força de crenças errôneas, também chamadas de distorções cognitivas ou de pensamentos, segundo o ponto de vista de especialistas em terapia cognitivo-comportamental. Trabalhar sobre essas distorções é uma das frentes que deve ser atacada quando o objetivo é perder peso.

Existem pelo menos 17 categorias de distorções cognitivas, segundo a pesquisadora Amanda dos Santos Moraes, primeira autora de uma pesquisa recente sobre as vantagens de incluir esse tipo de terapia no enfrentamento da obesidade.

Pensamento dicotômico

A mais comum observada por ela durante a pesquisa e em pessoas obesas com quadro de compulsão alimentar foi o Pensamento Dicotômico, quando o indivíduo vê as situações e pessoas em termos de “tudo ou nada”.

“São alguns exemplos quando a pessoa diz: ‘já que comi errado no café da manhã vou comer assim todo o dia’; “todo sacrifício que fiz foi perda de tempo” ou ainda que ‘toda pessoa obesa é feia’”, diz ela.

A pesquisa foi realizada pelo Grupo de Estudos da Obesidade da Universidade Federal de São Paulo, no campus da Baixada Santista. Os resultados foram publicados na revista Frontiers in Nutrition.

"Estou feliz, vou comer bastante"

Outras duas categorias de distorções observadas com frequência pela pesquisadora nesse trabalho de uma década com pessoas com obesidade foram as Comparações Injustas e o Raciocínio Emocional. “Em relação ao primeiro, um exemplo é quando a pessoa cita que ‘o metabolismo dela é mais acelerado que o meu’, ou ‘quando eu era mais nova vestia 36 e agora estou vestindo 44, quero voltar a vestir 36’”, explica ela.

Quanto à segunda distorção, um exemplo é quando a pessoa pensa: ‘sinto-me deprimida, por isso não consigo emagrecer’, ou ‘sinto-me feliz, preciso comer bastante para comemorar’”, cita ela. Estes pensamentos, diz ela, impedem a adesão ao tratamento e contribuem para a manutenção do quadro de obesidade.

Lições de casa

Uma das formas de reprogramar esse sistema de crenças está, diz Amanda, na aplicação da psicoeducação, que potencializa a psicoterapia. “No caso das distorções cognitivas, o psicólogo informa sobre as crenças mais comuns, o que significam e como lidar com estes pensamentos. A mudança se dá por aprendizagem, com informação, repetição e prática. Os pacientes são, inclusive, estimulados a realizarem tarefas de casa sobre o assunto tratado naquela intervenção, e trazem a lição na sessão seguinte”, diz.

Como exemplo, um indivíduo que relata ter fome emocional – quando há componentes não fisiológicos no ato de comer – que impede a perda de peso, o psicólogo pede como tarefa de casa que o paciente registre o que comeu ao longo da semana junto com as emoções que sentiu antes, durante e depois das refeições.

“Ao ver um apanhado da semana toda, o indivíduo tem maior consciência do que acontece de fato, como em um dia em que ficou até mais tarde no trabalho ou brigou com o chefe e sentiu mais vontade de comer doce quando chegou em casa”, diz ela.

Emoções positivas também induzem a comer demais

É muito comum associar a comida a aplacar emoções negativas mas, segundo Amanda, esse mecanismo ocorre também ligado a emoções positivas. “É o caso da pessoa que, quando está feliz, precisa comemorar e comer ‘sem limites’”, diz ela.

Em todo caso, não dá para desvincular a emoção da alimentação, pois ela é uma fonte de prazer que vai além de nutrir o corpo. “Para lidar com a fome emocional é necessário, muitas vezes, unir psicoterapia e acompanhamento nutricional. O exercício também é um aspecto importante neste processo. Por isso, o ideal é uma abordagem interdisciplinar, na obesidade, por ser de etiologia multifatorial”, diz ela.

Confusão de sentimentos

É comum também as pessoas confundirem estados de ânimo ou mudanças fisiológicas que decorrem de emoções com fome e saciedade. “Fome é quando sentimos literalmente os sinais fisiológicos, como o estômago roncar ou ao sentir fraqueza”, diz ela.

Já a fome emocional ocorre quando o indivíduo tem vontade de comer como consequência de emoções (tanto positivas quanto negativas) em busca de um alívio momentâneo. “A recompensa é a mais cômoda por ser mais simples de se conseguir e de prazer imediato”, diz Amanda.

(Fonte: Sempre Família)


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