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É preciso aceitar que a obesidade é uma questão de saúde pública

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Há dois dias estou em Viena, na Áustria, aguardando o Congresso Europeu de Obesidade (ECO: European Congress on Obesity), que se inicia hoje. Me debrucei por algumas horas nos estudos apresentados no último encontro realizado na cidade do Porto, em 2017.

Em meu entendimento a comunidade europeia debuta na aceitação da obesidade como grave problema de saúde pública, mantendo alguma dificuldade em aceitar o inconteste fato que a doença apresenta causas multifatoriais, é de difícil tratamento e mudanças comportamentais podem potencialmente evitar seu início ou estacionar sua evolução, mas, de regra, não oferecem magreza sustentável.
Contudo, nesses eventos existe uma maravilhosa amostra viciada de cientistas e médicos pesquisadores de todas as nacionalidades que veem o mundo como ele é, enxergando todas as fronteiras com linhas divisórias tênues, incapazes não só de evitar a imigração ilegal, assim como, inapto para impedir o viés da força bruta do interesse econômico bem acima do bom senso.

Gosto do observatório científico europeu acerca dessa doença, às vezes concluindo o óbvio, que nem sempre é fácil; em outras buscando possíveis causas, também definindo suscetibilidades e em algumas oportunidades sugerindo condutas.

“Obeso, mas em forma”, ou ainda, “Gordo, mas saudável”?
Pesquisadores da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, apresentaram no ECO 2017 um estudo que demonstra exatamente o contrário da afirmação do subtítulo acima. Estas afirmações rondam, há muito tempo, consultórios médicos, de nutricionistas, academias e afins. Tais deduções partem do pressuposto de que a obesidade não aumenta o risco de morte prematura quando desacompanhada de hipertensão, alterações no metabolismo da glicose ou elevações nos níveis de gordura no sangue.

A pesquisa deduz que obesos (IMC>30), ainda que sem comorbidades, apresentam um risco muito maior de desenvolver doenças cardíacas (doença coronariana e insuficiência cardíaca), cérebro-vasculares (acidente vascular isquêmico ou hemorrágico) e insuficiência vascular periférica, quando comparados com pacientes de IMC <30.
O grupo britânico analisou os registros médicos de 3,5 milhões de obesos “saudáveis” entre 1995 e 2015, concluindo que estes apresentaram 50% maior probabilidade de desenvolver doença coronariana, e entre 7% e 11% para desenvolver doença cérebro vascular e doença vascular periférica. Quase óbvio, mas, sujeito a questionamentos, penso que ratifique o conceito que esta patologia tenha que ser obrigatoriamente tratada.

Anticoncepcionais e ganho ponderal
Os anticoncepcionais orais, transdérmicos e versões injetáveis são continuamente vistos como mal feitores em favor do ganho de peso, com um estudo recente demonstrando que tal suspeita é a principal causa de abandono do método pelas pacientes.

A rejeição parte da decisão voluntária de mulheres resolutas no entendimento do uso do contraceptivo como fator engordativo. Enxergo justificativas: a estimulação estrogênica pode promover retenção hídrica, assim como, um aumento na gordura subcutânea, particularmente no peito, quadris e coxas; por outra via os progestágenos podem induzir aumento do apetite devido a suas propriedades anabolizantes. Porém, revisões recentes não conseguem estabelecer essa relação nada interessante entre uso de anticoncepcionais e sobrepeso/obesidade. Enquanto lidamos com a dúvida sustentamos debates.

Outro estudo apresentado no ECO 2017, executado no Departamento de Medicina da Universidade de Friburgo, na Suíça, demonstrou interessante resultado envolvendo o tema. A pesquisa comparou mulheres em uso de anticoncepcionais, com outras que não os utilizavam, observando o efeito térmico (ET) – energia despendida na digestão e absorção de determinado alimento -, causado por uma dieta com alto percentual de proteínas (24% do valor calórico total) para cada um dos grupos.

O estudo concluiu que mulheres em uso de contraceptivos dessa natureza tiveram a abolição do ET da dieta hiperproteica, situação não encontrada nas pares do outro grupo. Uma possível causa em um universo suscetível.

Do meu belvedere brasileiro
Me encontro cético e otimista, que o leitor me permita o paradoxo da assertiva, mas, em tempos de volumosa carga de informações on line, muito do que verei já nutro questionamentos. Igualmente, com imensa expectativa de ser convencido por argumentos que só ambientes de absoluto consenso acadêmico são capazes de entregar.

(Fonte: Veja) 

 

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